quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Coragenvardia

Paredes,
Janelas,
Luzes acesas ou apagadas.
Sempre a solidão
Do lado direito.
E do esquerdo
A vontade de desistir.

Bruno Vieira

Moderna relação. Silêncio, sufoco e auto tortura

No ultimo segundo
Alguém cedeu
E ninguém foi feliz para sempre.
Cada um continuou
Com a sua verdade escondida,
Uma arma engatilhada,
Coisa que não se guarda em casa
Onde mora quem se quer bem.

No ultimo segundo
Alguém cedeu
E morreu engasgado.
Mas continuou arrastando o cadáver
Da cama para o banheiro.

Bruno Vieira

domingo, 18 de julho de 2010

dragão

S. Jorge (Franceschini, 1718)



Edson Bueno de Camargo

e toda profecia
que lhe saía das mãos
era uma sentença torta
epístolas postas na mesa
sem direito e direção

era festa na aldeia
ou se assemelhava
algo que voava
entre fitas lilases
e milagres de vinho e pão

e todo vento
que me chegava
era embriagado
estopa embebida em vinagre
deuses bentos em oração

e sob luz de candeias e voltas
toda a reza tinha um certo destino
olhares de menina triste
rosas verdes no parapeito
e medo de assombração

naquela noite não dormi direito
São Jorge não era meu amigo ainda
olhava-me firme junto à janela
com o cavalo empinando
e debaixo mais condescendente
com todos os seus dentes
ria de mim o dragão

quarta-feira, 14 de julho de 2010

parafraseando Drummond:




Edson Bueno de Camargo

quando eu nasci
veio um saci
era para ser um anjo
que caiu de bebida na esquina
além de que seria plágio poético
(Carlos Drummond de Andrade teve a idéia primeiro)

o saci usava um velho jeans
e um all star surrado
(cadarço branco de velho punk)
não falava coisa com coisa
devia estar emaconhado brisado
sei lá
até ai
a vida não faz o menor sentido mesmo

vai edson
vai ser poeta na vida
maldisse o saci

fui peão de fábrica
tesoureiro
chefe de repartição
sindicalista
larguei a faculdade

mas fui pelas ruas
a fazer versos tortos
(imitando o Roberto Piva
que era um poeta melhor)

ah! como se pode perder o bonde da vida
se não existem mais bondes
só resta o conhaque no bar da esquina
e olhar o umbigo das moças que passam

olhar para a lua
pensando

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Contrato.





Edson Bueno de Camargo


quando me deram de comer
compraram com isso minh’alma
colocaram no fundo do prato
um contrato sem que me apercebesse

e quanto mais me fartasse
quanto maior a abundante mesa
mais partes de mim se levavam

não me sinto mais eu mesmo
há um vazio que me preenche por dentro
não há tormento,
nem angustia

só um vazio que me permeia a pele
como se esta fosse invisível
como se não fosse mais possível.



Poema publicado no livro "Poemas Do Século Passado-1982-2000", edição de autor, Mauá, SP - 2002  e  Livro da Tribo (Agenda Poética) 2004-2005 – Editora da Tribo – São Paulo-SP.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

conhecer (ou anzol)




Edson Bueno de Camargo




há momentos
que somos escravos
da sede de conhecer

o peixe
morde a morte
mais por curiosidade
que por fome

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Explicação para simples troca de olhares

Eu sorria porque
Era o que eu tinha a dize.
Sobre o teu braço
Enrolado no meu pescoço.
Não existia o despertador no dia seguinte,
Nem contas a pagar.
Só a música da sua respiração
E o cheiro do seu cabelo,
Um cobertor
E um bem estar...

terça-feira, 11 de maio de 2010

"sonho com serpentes"

M. C. Escher


Edson Bueno de Camargo

“Sueño con serpientes, con serpientes de mar,
con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.”
(Silvio Rodríguez)


que se envolvem entre si
em carne viva
em exposição
em expiação sangrenta

ninho coleante
e viscoso
gangrena dos ossos
vulcão orgânico e pestilento
de ovos
de larvas
de morte lenta adiada

tenho muitos olhos
tenho muitas bocas
e muitas línguas todas bífidas
o cheiro do medo buscam

sonho que estou vivo
(quando morto)
e andando
não caminho um metro sequer
sufoco em líquido
e meus movimentos são pulmões afogados
me afundam na areia movediça
nada me conduz
sob este céu insano

falo o som das escamas
dos estalidos de pequenos ossos
e palavras
com o fogo feroz
dos olhos animais acuados
fogos fátuos
e versos metálicos da palavra réptil

“sonho com serpentes”
e estas me devoram os olhos

segunda-feira, 8 de março de 2010

Blogagem Coletiva '100 anos do Dia Internacional da Mulher - Celebrar o quê?'



Blogagem Coletiva '100 anos do Dia Internacional da Mulher - Celebrar o quê?'

domingo, 7 de março de 2010

A idade da Sedução

Leticia Brito

"Seu cheiro de fruta madura adoça meu paladar
Sua pele firme e segura aguça meus desejos
Perto de ti sou apenas uma criança, um brinquedo para se observar
Daria toda minha vitalidade para poder, por um segundo te tocar.
Teus olhos são da cor do desejo, profundos preenchem o vazio da minha alma solitaria,
que deseja numa noite serena e calma, descobrir a força que guardas nos teus braços,
desvendar os prazeres que se escondem entre suas pernas.
Queria te entregar minha virilidade, juventude e vitalidade,
ver em teus olhos a faisca do desejo por meu corpo.
Mais teu corpo se afasta do meu, teus olhos não desejam desvendar o meu olhar,
Para ti não passo de uma bela paisagem que de longe não te atrai,
mas que apenas mostra como o tempo passou
Quem me dera alcançar tanto tempo de sedução, para poder, com afeto, tocar seu coração".


Sorrindo, ela guardou aquela pequena declaração enrolada em suas mãos, olhou para o jovem que observava seus movimentos, lhe deu um doce beijo e em seguida falou:
- Guarde com você essas palavras, espere cinco anos e as releia. Se, ainda sim, alguma verdade existir nelas, me procure, pois estarei ansiosa esperando pelo seu amor.
Enquanto ele ia embora segurando o papel e sorrindo ela olhou para o horizonte e pensou:
- Como é bom saber o caminho que eu quero seguir.
Se olhou no espelho, viu mais uma vez o que sempre admirou em seu rosto, o olhar penetrante e determinado de quem sabia que não basta a fantasia para viver bem a vida, é preciso saber onde se quer chegar para no caminho poder encontrar os braços quentes de um verdadeiro amor.