E se o telefone
tocar
E eu não tiver coragem de não atender?
Todas as esperanças serão mentira
Como sempre foram
Desde o primeiro dia,
Todas as loucuras
E instintos serão mais fortes
Que essa mente parcamente racional
E talvez eu encontre uma arma
Dentro de alguma gaveta.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
mapa do mundo
Edson Bueno de Camargo
tomar tijolo por tijolo
a palavra
constrói arcos
perfeitos em sua simetria
o barro cozido
se confunde com a terra e o fogo
é o âmago do planeta
nas linhas do corpo
a pele é um mapa do mundo
inertes
Edson Bueno de Camargo
ensinei à água
que corre
contra a gravidade
o alfabeto das coisas inertes
esta tão leve
que
a luz não a toca
fica em suspensão
gotas elétricas
que buscam
a luz das estrelas
sempre é dia
de se voltar para casa
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
CORPO MEU
Leticia Brito
Entre curvas, minhas verdades
Na minha boca guardo a recordação de beijos
Que fizeram de mim a mulher que hoje sou
Ao passear com as mãos pelo meu corpo
Não tenho medo do que encontro
E espero encontrar mãos que também não temam
Seios pequenos e meus
Pele morena e minha
Corpo feminino e abafado dentro da minha tristeza.
Olhos cor de mel que tem por sentido
fitar o céu a procura
da pureza perdida na terra
Entre todos os vestigios de beleza feminina
Se esconde uma alma frágil e pequenina
A procura do abraço sincero de alguém
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Adormecidos
Leticia Brito
Quanto silêncio nesse bar...
Enquanto a juventude dança celebrando a vitória dos hormônios sobre os sentimentos eu, quieta num canto, ouço a musica e começo a me indagar: Quando foi mesmo que deixamos de amar?
Na verdade nunca nos arriscamos a sentir nada mais profundo do que um orgasmo de quinze minutos. Tudo ao meu redor é tão futil que eu gentilmente me entrego ao prazer da minha solidão.
Ao meu redor todos estão adormecidos, sinto como se estivesse dentro de uma casa de bonecas onde todos são belos e plastificados, onde as pessoas possuem a pele lisa e o coração duro. Como posso eu fugir desse mundo se dentro dele não existe presença de um alguém de carne que me estenda a mão?
O mal do século não é a solidão, o grande mau é a juventude que tão banal em seus costumes acredita que o amor é uma prisão, sem saber que na verdade ele é a forma mais pura de se encontrar a liberdade.
Enquanto eu reflito todos dançam ao meu redor e eu no meu canto, perdida neste bar, só posso me pensar: Eu deveria mesmo aprender beber.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Brasil, meu anti-herói

Surrupiado desde o princípio
Eternamente surrupiado
Gigante pela própria natureza, porém, um rato pelo próprio caráter
Deitado eternamente, por não o deixarem levantar
Dos teus filhos que não fogem à luta, a maioria está cansada
– é uma luta sem trégua
Mãe pouco gentil tem sido com os filhos deste solo
– se lhes dá a liberdade, nega-lhes oportunidade
Deste mau exemplo e criaste o mau costume
Corrompe-se passivamente como uma puta
Reduz-se a dar-se por satisfeita com o “rouba, mas faz”
Tu que sempre dá um jeitinho em tudo, parece não ter jeito
Sua famigerada malandragem, é sua própria ruína
Negando a si mesmo o direito de ser respeitado,
Com indiferença os teus filhos tem tratado
Poema vertiginoso
Convivendo dia e noite com a agonia de ser o que não éComo verme a rastejar, de podres restos se nutriu
Febril e desolado,
Pobre diabo se tornou
Entre a reluzente lucidez e o nebuloso e inquietante delírio
Sempre a trilhar a beira do abismo
A sentir-se culpado pelos erros não cometidos
Ao ostracismo condenado sabe lá por quem...
A pecar sem temor
A violar sem pudor
Na penumbra a tatear, pelo eu perdido a buscar
Em si mesmo retraído,
A sonhar com a imperfeição que o faria perfeito
Ruminando as perdidas chances que o desfrute a sorte lhe negara
Exilado de si mesmo,
De tudo duvidando,
Apostando em qualquer coisa
Solidão – a dor que mata
domingo, 13 de setembro de 2009
Remanso
Pequena e acanhadaArrancada do seu berço
Jogada ao relento
À esquerda do velho pai
Pai violentado
Tão festiva quanto decadente
Orgulhosa da própria estupidez
Recorda-me Gregório de Matos – “Triste Bahia!”.
Bahia do lado de cá
Estagnada como o próprio nome sugere,
Culturalmente estagnada
De um sol intenso e de uma fisionomia imutável
Pouco ousada é sua gente
Catolicamente hipócrita
Hipocritamente católica
De uma classe média de novos-ricos, e politicagem oportunista.
Deste filho bastardo receba tão árdua contemplação
Provinciano
Da aridez hostil brotou o cactoDo cacto hostil brotaram poucas flores
Enfim, fez-se o homem forte.
Forte e curvado
Forte e arrebatado
Mira o futuro,
Mas o futuro se dispersa
Extrai de si mesmo a força que necessita
O pouco lhe basta
O excesso lhe sufoca
De aspecto agressivo
De conteúdo abundante
Criou-se da escassez,
Mas a ela não se conteve
Reciclou o sabugo
“Viajou na maionese”
Rompeu com o sagrado
Libertino libertado
Agridoce na essência
Move-lhe o tesão pelo desafio,
Pelo bizarro,
Pelo belo,
Pelo proibido
Do piegas nasceu o lascivo
Lapidou por si só o que tinha de tosco
Manteve tosco o que tinha de ser
Provinciano atrevido
Provinciano e decadente
Olhou para fora
Quis saber mais
Digeriu o proveitoso
Cuspiu as sobras
Vomitou o que havia sido imposto
Odiou a indiferença,
A hipocrisia repugnante
Sóbrio
Embriagado
Um pouco de Deus
Um tanto de Diabo
Tens o amor
Ama todas as cores,
Todas as formas – cada uma é especial,
Causam diferentes prazeres
Ardeu no ermo
Renasceu
Para si
Para o mundo
Respirou da secura do pó,
E do pó se fertilizou
Deu vida
Espantou a morte
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