segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

na origem os pés

"Foto de uma das pegadas de 1,5 milhão de anos descobertas no Quênia."


Edson Bueno de Camargo


para Antônio Jorge Valério



na origem
os pés pisaram 
este chão de basalto cristalino

planalto de pó e de origens
de plantas planares
em argila de ocre vermelho
dos ventres pungentes
que ainda gerarão a humanidade
(e de novo
e de novo)

somos todos africanos 
em nossa origem humana
todos exilados do terreno
da pátria primeira

foram os pés de nossos antepassados
fincados na terra
que nos trouxeram aqui

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Enigmático

Quando a esperança já não mais se fazia sentir,
Surgiu
Com brilho e estranheza
Revelando-se a si mesmo
Instintos despertando – libido e fúria
Um bruxo, eu diria.
Indiferente
Angelical e demoníaco
Indecifrável
Provando o improvável,
Sem nada querer provar
Perturbando as mais sisudas almas
Libertando reprimidas fantasias
Horror dos puritanos
Deus da indecência
Adorável e repulsivo

Arlindo Cirino

domingo, 3 de janeiro de 2010

casa dos mortos




Edson Bueno de Camargo

lendo José Carlos Mendes Brandão



a pedra canta o hino dos mortos
e de minha tíbia
faz uma flauta

o poeta encantou os meus dedos
pendurei um osso na orelha

a poesia agora sussurra
como a chuva

cortes selvagens

Edson Bueno de Camargo

carregar um cometa à boca
entre-dentes estrelas
e cortes selvagens na saliva

toda a palavra contém sangue
de dureza de diamantes negros
pedras profusas da dor

eis a tristeza de dias claros
com bilhas de água
logo à porta

(mata a sede dos) viajantes
percorrem às sombras silenciosas
da noite

hoje amanheci
com uma margarida
plantada no peito

suas raízes frágeis
se estendem por veias
e poças de coágulos

uma flor com o peso de um planeta
com pétalas rindo
como dentes ao sol

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Sonho escatológico

Acordei-me subitamente a cuspir com tamanho nojo que me causava o gosto amargo de fina merda.
Merda dada na colher como se sopa fosse.
Tal façanha me fizeste uma louca dona, que, ao sentir-se ofendida depois de ter-lhe eu socado um dos dedos cu a dentro, causando-lhe um pequeno corte, sacou da colher como se fosse essa uma arma, e cravou-me, impiedosamente, na boca, a indigesta substância intestinal.

Arlindo Cirino

Cultura local

Batido e rebatido
Surrado
Ruminado
Cagado e degustado
Pisado e repisado,
Em fino pó o resultado
Pó entorpecente,
Que paralisa a mente
Mente atrofiada
Mente acomodada

Do lixo come,
Mas nem sabe do que tem fome
A cegueira da burrice
Que limita o imaginário
Que cultua a exaustiva repetição
O eterno mais do mesmo,
Que exaure o cérebro e o coração

Arlindo Cirino

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Operária do prazer

Entre insultos e a indiferença dos que a possuem,
Trocando prazer por dinheiro,
Esperando da vida o que ela lhe negara
Submissa à embriagante volúpia masculina
Alvo das taras enrustidas e fantasias machistas
Invadida por estranhos
Devorada sem afeto
Seu nojo reprimindo para o seu sustento garantir
Objeto do gozo alheio,
Sacrificando o próprio gozo
De tantos e de nenhum
Sempre a deparar-se com a solidão dos que nascem apenas pra servir
Margeando a sociedade como se dela não fosse parte
Ignorada depois do prazer como que sendo este seu único valor
Não faz distinção de beleza, humor ou comportamento – encara a todos com a mesma delicadeza de fêmea fornecedora.

Arlindo Cirino

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

nome das coisas

Edson Bueno de Camargo


1

aprender o nome das coisas
andar sobre o fogo
a medida que estas se criam

a criança traça o universo
com sua língua singela
portanto precisa
dando nome próprio
às coisas próprias

depois os mestres
lhes confrontam o que consideram errado
reprimindo um mundo novo
e em criação
recriando um velho e deformado

2

o verdadeiro nome das coisas
apreende-se à medida
que estas se criam

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Blogagem Coletiva “Abre Aspas Terceira Edição”


No dia 09 de novembro (uma segunda-feira – é claro) “abra aspas” no seu blog, escolhendo um poeta e uma poesia para deixar mais poética a blogosfera…


DE "OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO"

de Anna Akhmátova


"De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.
Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.
Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria."

Ana Akhmátova, pseudónimo de Ana Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.

O último segundo

E se o telefone
tocar
E eu não tiver coragem de não atender?
Todas as esperanças serão mentira
Como sempre foram
Desde o primeiro dia,
Todas as loucuras
E instintos serão mais fortes
Que essa mente parcamente racional
E talvez eu encontre uma arma
Dentro de alguma gaveta.