domingo, 3 de janeiro de 2010

cortes selvagens

Edson Bueno de Camargo

carregar um cometa à boca
entre-dentes estrelas
e cortes selvagens na saliva

toda a palavra contém sangue
de dureza de diamantes negros
pedras profusas da dor

eis a tristeza de dias claros
com bilhas de água
logo à porta

(mata a sede dos) viajantes
percorrem às sombras silenciosas
da noite

hoje amanheci
com uma margarida
plantada no peito

suas raízes frágeis
se estendem por veias
e poças de coágulos

uma flor com o peso de um planeta
com pétalas rindo
como dentes ao sol

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Sonho escatológico

Acordei-me subitamente a cuspir com tamanho nojo que me causava o gosto amargo de fina merda.
Merda dada na colher como se sopa fosse.
Tal façanha me fizeste uma louca dona, que, ao sentir-se ofendida depois de ter-lhe eu socado um dos dedos cu a dentro, causando-lhe um pequeno corte, sacou da colher como se fosse essa uma arma, e cravou-me, impiedosamente, na boca, a indigesta substância intestinal.

Arlindo Cirino

Cultura local

Batido e rebatido
Surrado
Ruminado
Cagado e degustado
Pisado e repisado,
Em fino pó o resultado
Pó entorpecente,
Que paralisa a mente
Mente atrofiada
Mente acomodada

Do lixo come,
Mas nem sabe do que tem fome
A cegueira da burrice
Que limita o imaginário
Que cultua a exaustiva repetição
O eterno mais do mesmo,
Que exaure o cérebro e o coração

Arlindo Cirino

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Operária do prazer

Entre insultos e a indiferença dos que a possuem,
Trocando prazer por dinheiro,
Esperando da vida o que ela lhe negara
Submissa à embriagante volúpia masculina
Alvo das taras enrustidas e fantasias machistas
Invadida por estranhos
Devorada sem afeto
Seu nojo reprimindo para o seu sustento garantir
Objeto do gozo alheio,
Sacrificando o próprio gozo
De tantos e de nenhum
Sempre a deparar-se com a solidão dos que nascem apenas pra servir
Margeando a sociedade como se dela não fosse parte
Ignorada depois do prazer como que sendo este seu único valor
Não faz distinção de beleza, humor ou comportamento – encara a todos com a mesma delicadeza de fêmea fornecedora.

Arlindo Cirino

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

nome das coisas

Edson Bueno de Camargo


1

aprender o nome das coisas
andar sobre o fogo
a medida que estas se criam

a criança traça o universo
com sua língua singela
portanto precisa
dando nome próprio
às coisas próprias

depois os mestres
lhes confrontam o que consideram errado
reprimindo um mundo novo
e em criação
recriando um velho e deformado

2

o verdadeiro nome das coisas
apreende-se à medida
que estas se criam

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Blogagem Coletiva “Abre Aspas Terceira Edição”


No dia 09 de novembro (uma segunda-feira – é claro) “abra aspas” no seu blog, escolhendo um poeta e uma poesia para deixar mais poética a blogosfera…


DE "OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO"

de Anna Akhmátova


"De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.
Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.
Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria."

Ana Akhmátova, pseudónimo de Ana Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.

O último segundo

E se o telefone
tocar
E eu não tiver coragem de não atender?
Todas as esperanças serão mentira
Como sempre foram
Desde o primeiro dia,
Todas as loucuras
E instintos serão mais fortes
Que essa mente parcamente racional
E talvez eu encontre uma arma
Dentro de alguma gaveta.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

mapa do mundo

Edson Bueno de Camargo


tomar tijolo por tijolo

a palavra
constrói arcos
perfeitos em sua simetria

o barro cozido
se confunde com a terra e o fogo
é o âmago do planeta

nas linhas do corpo
a pele é um mapa do mundo

inertes

Edson Bueno de Camargo

ensinei à água
que corre
contra a gravidade
o alfabeto das coisas inertes

esta tão leve
que
a luz não a toca

fica em suspensão
gotas elétricas
que buscam
a luz das estrelas

sempre é dia
de se voltar para casa

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CORPO MEU

Leticia Brito

Entre curvas, minhas verdades
Na minha boca guardo a recordação de beijos
Que fizeram de mim a mulher que hoje sou

Ao passear com as mãos pelo meu corpo
Não tenho medo do que encontro
E espero encontrar mãos que também não temam

Seios pequenos e meus
Pele morena e minha
Corpo feminino e abafado dentro da minha tristeza.

Olhos cor de mel que tem por sentido
fitar o céu a procura
da pureza perdida na terra

Entre todos os vestigios de beleza feminina
Se esconde uma alma frágil e pequenina
A procura do abraço sincero de alguém